As insolvências voltaram a assumir um papel central no risco de crédito e na estabilidade das cadeias de fornecimento. O relatório Global Insolvency Outlook 2026-27 da Allianz antecipa que a pressão que se mantém em 2025, continuará em 2026, com uma normalização lenta apenas em 2027, e com assimetrias relevantes por região, setor e dimensão de empresa.
O relatório traça um cenário que confirma a continuidade de um risco elevado, mais do que uma crise súbita. A evolução das insolvências aponta para uma pressão prolongada sobre as empresas, com impacto direto na liquidez, nas margens e na confiança nas relações comerciais.
Previsões globais para as Insolvências:
- +6% em 2025
- +5% em 2026
- -1% em 2027
2026 será o quinto ano consecutivo de subida, colocando os níveis de insolvência 24% acima da média pré-pandemia. Em 2025, o índice global de insolvências deverá situar-se 19% acima da média de 2016-2019, embora ainda abaixo do patamar médio registado durante a crise financeira global.
O risco não está a manifestar-se através de um choque abrupto, mas sim como uma pressão persistente e acumulativa, que tende a ser mais difícil de gerir. Este cenário prolongado corrói gradualmente a capacidade financeira das empresas, fragiliza as margens e aumenta a desconfiança nas cadeias de valor, tornando a gestão do risco de crédito um fator crítico para a sustentabilidade dos negócios.
Fatores que podem prolongar a pressão
O relatório identifica vários fatores que podem manter ou até intensificar a pressão sobre o risco de insolvência nos próximos anos.
- Crescimento económico insuficiente, incapaz de absorver o aumento dos custos e do endividamento.
- Condições de financiamento mais restritivas do que inicialmente previsto, com impacto direto na liquidez.
- Maior disciplina fiscal, particularmente penalizadora para setores dependentes de estímulos públicos, como a construção.
Adicionalmente, há um fator estrutural frequentemente subestimado que deve ser tido em conta: a proliferação de novas empresas. Embora positiva do ponto de vista da dinâmica económica, esta tendência aumenta o risco agregado ao introduzir empresas mais frágeis financeiramente, intensificar a concorrência e elevar a probabilidade de criação de empresas vulneráveis em contextos de abrandamento.
Como exemplo, na Europa, os registos de novas empresas cresceram 9% entre 2021 e 2024, em comparação com o período 2016–2019. Nos Estados Unidos, os pedidos de criação de empresas estão 36% acima dos níveis anteriores.
Este enquadramento reforça a ideia de que o risco de insolvência não depende apenas do ciclo económico, mas também da estrutura e maturidade do tecido empresarial, tornando a monitorização contínua ainda mais crítica.
Risco por regiões e mercados
A evolução das insolvências não é uniforme à escala global. As diferenças regionais e a exposição desigual aos mercados internacionais criam níveis de risco distintos entre países, tornando essencial analisar o comportamento das insolvências por região e por grau de dependência das exportações.
Europa Ocidental
Na Europa Ocidental, o relatório aponta para a continuidade da pressão sobre a solvência empresarial. Para 2025, prevê-se um novo aumento regional das insolvências de 6%, seguido por uma descida moderada de 2% em 2026. Ainda assim, esta correção não será homogénea.
Alemanha, Itália e Espanha são exceções, onde o risco de insolvência deverá permanecer mais elevado, refletindo fragilidades estruturais, menor dinamismo económico e maior exposição a choques externos.
No caso de Portugal, o relatório apresenta um enquadramento distinto. O país surge como uma exceção positiva, com uma queda das insolvências em 2025 e níveis que deverão permanecer abaixo da média de 2016–2019 até 2026, de acordo com a análise regional.
Países mais expostos às exportações
O relatório estabelece uma ligação direta entre a queda das exportações e o aumento das insolvências em economias com maior dependência do comércio externo. Num cenário adverso modelizado, são estimados acréscimos adicionais relevantes no número de empresas insolventes:
- Canadá: +1.900 empresas
- França: +6.000 empresas
- Espanha: até +2.900 empresas
- Países Baixos: +700 empresas
Este exercício evidencia que os países com maior exposição às cadeias globais de comércio estão particularmente vulneráveis a choques na procura externa, tensões comerciais e alterações nas condições de financiamento internacional.
Efeito dominó: grandes insolvências e emprego em risco
Do ponto de vista da gestão do risco de crédito, o relatório identifica dois sinais particularmente relevantes, que ajudam a explicar porque o risco sistémico permanece elevado.
1. Grandes empresas também estão a falhar
Entre o primeiro e o terceiro trimestre de 2025, foram registadas 327 insolvências classificadas como “major”, ou seja, empresas com dimensão e impacto significativo. Na prática, isto equivale a uma grande insolvência a cada 20 horas.
Este fenómeno aumenta substancialmente o risco de efeito dominó ao longo das cadeias de fornecimento, afetando fornecedores, subcontratados e parceiros comerciais que, muitas vezes, dependem fortemente destes grandes clientes para a sua estabilidade financeira.
2. Emprego diretamente em risco
O impacto das insolvências vai além das empresas diretamente afetadas. O relatório estima que 2,1 milhões de empregos estejam diretamente em risco a nível global em 2025, o que representa cerca de mais 60 mil postos de trabalho face a 2024.
A maior concentração deste risco encontra-se na Europa Ocidental e na América do Norte, regiões onde o peso das grandes empresas e das cadeias de fornecimento complexas amplifica os efeitos de cada insolvência relevante.
Portugal: o que o relatório antecipa
No contexto europeu, Portugal surge com um enquadramento relativamente mais favorável, embora com diferenças importantes consoante a dimensão das empresas.
- 2025 deverá terminar com menos de 2.200 casos de insolvência (-8% em termos homólogos).
A descida é atribuída, sobretudo, ao recuo em setores que historicamente contribuem de forma significativa para o número total de insolvências, como serviços, construção, retalho e têxtil, bem como à resiliência da procura interna.
A redução de insolvências ocorre sobretudo em microempresas (cerca de dois terços dos casos), enquanto as insolvências continuam a subir em pequenas e médias.
Para 2026 e 2027, a perspetiva é de estabilização, com uma variação estimada de -1% em 2026 e 0% em 2027, sinalizando um abrandamento da melhoria, mas sem um regresso imediato a níveis de risco mais baixos.
O relatório confirma que o risco de insolvência entrou numa fase prolongada de pressão, marcada menos por choques abruptos e mais por um desgaste contínuo da liquidez, das margens e da confiança comercial. A subida das insolvências em 2025 e 2026, aliada às assimetrias regionais e setoriais, revela um contexto em que a normalização será lenta e desigual, mesmo nos mercados com perspetivas mais favoráveis.
A persistência deste cenário exige uma abordagem mais rigorosa à gestão do risco de crédito. A fragmentação do risco, o aumento das insolvências de empresas de maior dimensão e o potencial efeito dominó ao longo das cadeias de fornecimento tornam insuficientes as estratégias baseadas apenas em histórico ou em políticas uniformes. Num ambiente de crescimento moderado, custos elevados e incerteza comercial, a capacidade de antecipar riscos, ajustar limites e proteger o capital circulante será determinante para a resiliência das empresas nos próximos anos.
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